8. ARTES E ESPETULOS 12.9.12

1. ARTE  POTICA DE MERCADO
2. CINEMA  NO FOI BEM ASSIM, MAS...
3. MSICA  ALMA DE PLSTICO
4. LIVROS  A ECONOMIA DOMADA
5. VEJA RECOMENDA
6. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
7. J.R. GUZZO  RATOS E HOMENS

1. ARTE  POTICA DE MERCADO
Entre a reflexo e o consumo, a Bienal de So Paulo e a Art Rio oferecem um cardpio generoso no ano em que o Brasil vem sendo visitado por mostras memorveis.
MARIO MENDES

     So Paulo j  um dos grandes centros de arte contempornea no mundo, declarou a VEJA o ingls Nicholas Serota, diretor da prestigiosa Tate Gallery de Londres e uma das maiores autoridades no assunto. Sir Nicholas foi um dos vrios nomes ilustres da cena artstica internacional que aterrissaram na cidade na semana passada para a abertura da 30 Bienal de So Paulo  que permanece em cartaz at 9 de dezembro no Parque do Ibirapuera. Enquanto isso, desta quarta-feira at domingo 16, acontece no Per Mau, no Rio de Janeiro, a segunda edio da feira Art Rio. Apesar de possurem objetivos diferentes  a tradicional mostra paulistana ambiciona exibir um panorama do que h de relevante na arte mundial; a feira carioca  voltada para a comercializao de obras , os dois eventos convergem em um momento de particular efervescncia nas artes visuais no Brasil. Vrias exposies de grande porte estiveram ou ainda esto em cartaz, como a retrospectiva de Alberto Giacometti, a coleo dos impressionistas do Museu dOrsay de Paris e a mostra de Caravaggio. O cardpio agora de arte contempornea, com toda a propalada crise, a costumeira impostura e o renitente brilho que lhe so prprios. A Bienal traz cerca de 3000 obras de 111 artistas  dos suportes tradicionais de pintura e escultura a experincias em foto, vdeo, instalao e performance  e vai alm de seu espao no prdio de Oscar Niemeyer, com trabalhos expostos em outros museus, como o Masp, e em locais pblicos da cidade, como a Estao da Luz. A expectativa  receber um pblico maior do que o da plida edio anterior, que foi de 600.000 pessoas. J a Art Rio rene 120 galerias, nacionais e internacionais, apresentando cerca de 1000 obras. Espera atrair 60.000 visitantes e movimentar em torno de 150 milhes de reais.
     Depois de polmicas tolas  a tal Bienal do Vazio, em 2008, e a edio de 2010, em que se discutiu se a presena de urubus na instalao de Nuno Ramos era ecologicamente correta , a Bienal vem com um tema to vago quanto indecifrvel: A Iminncia das Poticas. Alis, o curador da mostra, o venezuelano Luis Prez-Oramas, prefere falar em motivo, e no em tema. Minha inteno  voltar  potica como motivo central do fazer artstico, diz, em fluente curadors. Ele escolheu como principal artista brasileiro do evento o sergipano Arthur Bispo do Rosrio, morto em 1989, que passou cinquenta de seus 80 anos em uma instituio psiquitrica no Rio de Janeiro. Oramas admite o carter pessoal da escolha, mas justifica-se afirmando que a descoberta da obra de Bispo do Rosrio, no fim dos anos 80, influenciou artistas contemporneos como Leonilson e Leda Catunda. Como procurou agrupar os artistas no pelo pas de origem, mas pelas similaridades estticas, o curador tambm chama ateno para obras que utilizam o bordado, o principal meio de expresso de Bispo do Rosrio.  o caso das americanas Sheila Hicks  que, com certo esprito riponga, se vale de tcnicas de tecelagem de povos nativos da Amrica do Sul  e Elaine Reichek  cujos bordados reproduzem obras de arte de vrios perodos da histria e representam mitos como o do Minotauro em seu labirinto.
     Como de costume, o visitante vai deparar com muitas bienalzices  bobagens, algumas divertidas, outras inanes, feitas com a pretenso de causar impacto em exposies gigantes. Tal  o caso das telas em branco do coletivo PPPP (Productos Peruanos Para Pensar). Mas h tambm instalaes de grande impacto visual, corno as clulas brancas  recintos claustrofbicos nos quais o artista entrava  do israelense Absalon, que se suicidou em 1993. Outras mostras internacionais esto pautadas por questes polticas. Ns estamos propondo uma outra discusso, mais estritamente artstica, diz Heitor Martins, presidente da Fundao Bienal.
     Antes das questes artsticas, porm, o presidente teve de se ver com os problemas financeiros. Em seu segundo e ltimo mandato, Martins  que atua no mercado financeiro  enfrentou uma grave crise. Por causa de dvidas de gestes anteriores, a Bienal teve suas contas bloqueadas em janeiro. Falou-se at na possibilidade de a mostra no acontecer. Foi necessria uma ao na Justia para que a verba federal do evento fosse liberada. Graas a um grande esforo de gesto, conseguimos realizar esta Bienal com 22,5 milhes de reais, 20% a menos do que a anterior, diz. A boa gesto econmico-cultural  prtica da famlia: Martins  casado com Fernanda Feitosa, diretora e idealizadora da SP-Arte, feira que est em sua oitava edio.
     O sucesso da SP-Arte serviu de inspirao para a Art Rio, que neste ano ter a participao substantiva da Gagosian de Nova York, considerada a maior galeria de arte do mundo, com filiais em doze cidades. Decidimos participar da Art Rio pela oportunidade de conhecer um mercado novo e excitante, diz a americana Victoria Gelfand, diretora da galeria. Em sua primeira ao no Brasil, a Gagosian traz oitenta obras de treze artistas, entre modernistas histricos, como Picasso e Henry Moore, e sucessos do momento, como o japons Takashi Muralcami. Os preos variam de 15.000 a 15 milhes de dlares.
     O curador Oramas  reticente em relao ao modelo das feiras. Compradores, feiras e leiles no devem estabelecer o valor de uma obra ou ditar prioridades curatoriais, avisa. Graas a declaraes como essa, ele j foi acusado de inimigo do mercado. Mas grandes mostras como a bienal tm o poder de consagrar um artista, enquanto feiras celebram marcas j consolidadas. Espera-se que a Bienal de So Paulo retome esse poder  e no volte a cair no vazio.


2. CINEMA  NO FOI BEM ASSIM, MAS...
Abraham Lincoln  Caador de Vampiros, de Timur Bekmambetov,  uma deliciosa justaposio de fico delirante e da histria real do maior presidente americano.
ISABELA BOSCOV

     Estimam os registros oficiais que na Batalha de Gettysburg, a maior da guerra civil americana (1861-1865) e aquela em que a sorte virou em favor da Unio comandada pelo presidente Abraham Lincoln, 51.000 soldados pereceram, sendo 23.000 deles unionistas, do norte, e 28.000 rebeldes confederados, do sul. O cineasta Timur Bekmambetov e o escritor e roteirista americano Seth Grahame-Srnith, porm, gostariam de propor uma correo a esses dados. Sim, milhares de combatentes nortistas de fato encharcaram com seu sangue esse pequeno campo da Pensilvnia. Quanto aos sulistas  bem, a maior parte deles j estava morta fazia tempo, embora a falta de batimento cardaco em nada houvesse diminudo sua agilidade e agressividade. Ao contrrio: no tivesse o presidente conclamado os cidados do norte a doar toda a sua prata, para fundi-la em balas de rifle e de canho, teria sido impossvel derrotar esse exrcito de vampiros de ferocidade literalmente sobrenatural. Graas ao expediente, porm, Lincoln livrou os Estados Unidos da sina medonha de ser uma nao de mortos e garantiu a supremacia dos vivos. Extirpar o cncer da escravido sempre esteve entre os objetivos centrais do 16 e mais amado de todos os presidentes americanos. Mais urgente ainda, entretanto, era sua misso secreta de aniquilar a ameaa que viajara do Velho para o Novo Mundo nos primeiros navios dos colonizadores, mas florescera no sul como nunca antes graas  oferta farta e fcil da carne dos escravos. Eis uma das delcias de Abraham Lincoln  Caador de Vampiros (Abraham Lincoln: Vampire Hunter, Estados Unidos, 2012), em cartaz desde sexta-feira no pas: to bem cerzida  a emenda entre a histria real e a histria inventada (e absurda) que  fcil esquecer que ela est l. 
     Esse tipo de costura  o que fez a fama de Grahame-Smith, o inventor do gnero literrio batizado de mashup  mistureba, em traduo livre. O escritor comeou com uma abilolada homenagem a Jane Austen em Orgulho e Preconceito e Zumbis, e ento prosseguiu com o casamento entre histria real e fico delirante com Abraham Lincoln  Caador de Vampiros. De l para c, tem se dedicado ao que parece ser sua real vocao: roteiros. Deu um muito necessrio toque de graa a Sombras da Noite, de Tim Burton. E, adaptando seu prprio original, fez aqui algo que di  maioria dos autores: cortou na carne e remodelou seu livro sem piedade para acomod-lo  narrativa cinematogrfica. Sua irreverncia  o par perfeito para a doidice de Bekmambetov, que despontou com os incompreensveis mas notveis Guardies do Dia e Guardies da Noite e, nos Estados Unidos, fez o excelente O Procurado. Nascido e criado no Cazaquisto, veterano do Exrcito sovitico e ex-publicitrio, Bekmambetov, de 51 anos, tem uma sensibilidade estranha e idiossincrtica:  um mestre da artimanha visual e  tambm um niilista pndego, por assim dizer  se ele tem alguma f na humanidade ou na civilizao, ela  pequena a ponto de passar despercebida; mas trata isso mais como motivo para divertir-se que para deprimir-se.
     Da ser to curiosa sua escolha para contar a histria de um homem moral por excelncia: um filho de lenhador que se alfabetizou e se tornou advogado com sacrifcios extremos, permaneceu ntegro no poder, divisou um futuro tico para uma nao e no transigiu com sua concretizao  e que, com seu exemplo prtico e sua retrica magnfica,  ainda hoje fonte de inspirao. Interpretado com graa e inocncia pelo relativamente desconhecido Benjamin Walker, o jovem Lincoln do filme, como o da histria real,  profundamente marcado pela perda de sua me  s que nesta verso, naturalmente, ela foi vtima de um vampiro. Determinado a varrer essa escria da Terra, Lincoln treina-se no manejo do machado com um morto-vivo (Dominic Cooper) que abomina seus pares, e  capaz de proezas fantsticas contra os inimigos. Mas, pouco a pouco, se d conta de que o problema que enfrenta  muito maior, e socioeconmico: imoral em si s, o regime escravagista do sul  ainda a circunstncia que alimenta o avano desses seres tenebrosos. A escravido como uma criatura verdadeiramente nascida das trevas, e a guerra pelo bem como uma misso que s um homem que abdicou do interesse pessoal poderia assumir: entre uma e outra estupenda cena de ao, o ctico Bekmambetov mais e mais vai se assombrando com o carter de Lincoln. E, para sua prpria surpresa, descobre que isso de ter convico  coisa sria.


3. MSICA  ALMA DE PLSTICO
Com muita voz e pouca emoo, o disco mais recente de Joss Stone sintetiza os equvocos das cantoras da nova  e aguada  soul music.
SRGIO MARTINS

     Em Pillow Talk, de 1973, a cantora americana Sylvia Robinson  morta no ano passado  pedia ao namorado que trocasse a companhia dos amigos por uma noite de amor. Sylvia, muito de acordo com a sensualidade de sua prpria letra, cantava em meio a arfados e gemidos que deixavam suas intenes muito claras, at para o ouvinte que no entendesse ingls. Pois Pillow Talk est em The Soul Sessions Vol. 2, disco de Joss Stone que chegou h pouco s lojas. A nova verso trocou as insinuaes sussurrantes de Sylvia pela gritaria sexualmente explcita de Joss. Quase d para dizer que o que era erotismo na voz da autora da msica tornou-se pornografia com a intrprete inglesa. Esse  um dos muitos equvocos deste lbum que pretende homenagear o soul e o rhythmnblues americano. Joss solta o vozeiro, mas no o sentimento: fica presa  externalidade de uma msica que, como diz o nome, exige que a cantora exponha a sua alma (em ingls, soul). No est sozinha: entre as desalmadas, contam-se tambm Adele e Amy Winehouse, divas que fizeram do soul um dos gneros mais populares do cenrio pop atual. So passadistas que no entendem realmente o passado que pretendem recuperar.
     Foi no incio deste sculo que algumas crooners pop do circuito musical britnico comearam a ser convertidas em damas da msica negra americana. Surgia o neo-soul, estilo que tem como caracterstica um certo ar retr, tanto nos arranjos das canes quanto no visual das cantoras. A fonte musical mais copiada  a Motown, gravadora americana que revelou Marvin Gaye e Stevie Wonder. A produo de moda inclui vestides e cabelo estilo bolo de noiva. Joss Stone foi a pioneira dessa onda revival (ela s no aderiu ao figurino: prefere vestir-se como uma riponga tardia). Nove anos atrs, ela lanou o que seria o volume 1 de The Soul Sessions, com releituras para sucessos e faixas obscuras do universo do rhythmnblues e da soul music. A boa repercusso dessa estreia abriu as portas para outras candidatas a diva. Amy Winehouse comeou mais prxima do blues e do jazz, mas foi transformada em uma soulwoman por obra do produtor Mark Ronson, que recrutou o grupo americano The Dap-Kings para embalar o revival dos anos 70 no disco Back to Black. Deu certo: esse segundo disco de Amy vendeu 30 milhes de cpias no mundo inteiro. Mas, pelos temas de sua msica e pela atitude escrachada, a cantora continuou mais prxima do esprito mundano do blues do que da eterna busca pela redeno da melhor soul music. A despeito dos arranjos, Rehab, com sua franca celebrao do alcoolismo, poderia figurar em um show de John Lee Hooker.
     A galesa Duffy e a inglesa Adele vieram na esteira do sucesso de Back to Black. De voz nasalada, com um p no soul e outro no pop dos anos 60, Duffy no se saiu to bem: Endlessly (2010), seu segundo disco, vendeu mal. Adele fazia o gnero voz e violo quando o produtor americano Rick Rubin assumiu a produo do lbum 21. O disco vendeu tanto que salvou o ano fiscal da indstria fonogrfica. Joss fez sucesso, sobretudo com o primeiro disco, mas j no  um grande fenmeno de massa, e Amy morreu em 2011. O trono de rainha do novo soul hoje cabe, portanto,  simptica (e aucarada) Adele.
     Ningum discute que essas artistas so, todas elas, timas cantoras. Mas classific-las sob o rtulo do soul  to equivocado quanto achar que Norah Jones canta jazz. Em geral, a interpretao delas  um festival de berros. A voz poderosa, no entanto, nem sempre foi exigncia para uma cantora de soul: Diana Ross tem uma voz at pequena (pelo menos, em comparao com uma Aretha Franklin), mas sabe onde pr sentimento. Tanto quanto a cantoria empostada, os arranjos do neo-soul so museolgicos em seu esforo de arremedar a sonoridade de quarenta ou cinquenta anos atrs. Resulta da um pastiche, sem vestgio da vitalidade da msica daquele tempo. Atraem o ouvinte saudosista, que no acompanhou a evoluo da soul music mais inquieta e viva  esta que hoje caminha ao lado do hip-hop, como se ouve nos discos de Mary J. Blige.
     No se confunda essa crtica a cantoras que por acaso so brancas com qualquer patrulha tnica. Embora originalmente negra, a soul music conheceu grandes intrpretes brancas, como Dusty Springfield (1939-1999), que todas as cantoras da nova gerao apontam como referncia. Mas Dusty voltamos sempre ao mesmo ponto inescapvel cantava com emoo.  essa simples qualidade que falta a The Soul Sessions Vol. 2. Joss Stone chamou ao estdio um veterano como o guitarrista Ernie Isley, dos Isley Brothers, para dar ao disco aquele selo de autenticidade. Mas no adiantou:  soul plastificado.

JOSS STONE
Diz ser influenciada por: Aretha Franklin e Erykah Badu 
Por que ainda no chegou l: suas interpretaes vo quase sempre para o lado errado. No seu novo disco, a cano sexy Pillow Talk, de Sylvia Robinson, transforma-se em um exerccio de virtuosismo vocal, desprovido de sutileza  e, mais grave, de sensualidade.

ADELE
Diz ser influenciada por: Dusty Springfield e Etta James
Por que ainda no chegou l: como cantora,  superior a Joss Stone e Amy Winehouse. Mas, em baladas como Someone Like You, ela aucara a interpretao quase ao ponto de provocar choques insulnicos no ouvinte.

AMY WINEHOUSE
Dizia ser influenciada por: Dinah Washington e The Supremes 
Por que nunca chegou l: na essncia, ela era uma cantora de blues, puxando para o jazz, como se ouvia no disco de estreia, Frank. Suas incurses pelo soul passam ao largo do esprito do gnero   assim em Rehab, cuja letra debochada sobre bebedeira foge da redeno das letras soul


4. LIVROS  A ECONOMIA DOMADA
A jornalista Sylvia Nasar traa um panorama da evoluo do pensamento econmico nos ltimos 200 anos  um perodo de multiplicao da riqueza indito na histria.
GIULIANO GUANDALINI

     A vida era dura para os ingleses no inicio do sculo XIX. As pessoas fugiam da fome no campo e se espremiam em cortios ptridos nas cidades, onde buscavam trabalho na indstria. O desenvolvimento das primeiras mquinas, a partir do sculo anterior, multiplicara a produo nas fbricas sem diminuir a carga de trabalho. Os operrios, incluindo crianas, cumpriam jornadas superiores a doze horas dirias. Os mineiros de carvo, nas palavras do filsofo Edmund Burke, quase nunca viam o sol. No existiam leis trabalhistas nem previdncia social. Com uma expectativa de vida mdia de 32 anos na Inglaterra, a maioria absoluta da populao era condenada a trabalhar da infncia ao ltimo dia de vida, como narra a jornalista Sylvia Nasar nas pginas iniciais de A Imaginao Econmica (traduo de Carlos Eugnio Marcondes de Moura; Companhia das Letras; 577 pginas; 54,50 reais). Foi nesse contexto que o reverendo Thomas Malthus apresentou a influente teoria segundo a qual as populaes tendiam a crescer acima da oferta de alimentos, perpetuando a pobreza.
     Nascida na Alemanha e radicada em Nova York, onde d aulas na escola de jornalismo na Universidade Colmbia. Sylvia Nasar  a autora do best-seller Uma Mente Brilhante (1998), biografia do prmio Nobel de Economia John Forbes Nash que inspirou o filme ganhador do Oscar de 2002. Em A Imaginao Econmica, a autora faz o perfil de uma dezena de figuras que ela aponta como protagonistas em transformar a economia em instrumento de domnio do destino da humanidade. O livro narra a vida e a formao dos pensadores que tentaram solucionar aquilo que o ingls John Maynard Keynes chamou de o problema poltico da humanidade: como combinar eficincia econmica, justia social e liberdade individual. Essa foi, diz Nasar, a histria da grande busca (Grand Pursuit, o ttulo original do livro em ingls) para tornar o homem senhor de suas circunstncias, liberando-o da penria que inspirou o pessimismo de Malthus  e o iderio comunista do alemo Karl Marx (que, lembra Sylvia, nunca pisou em uma fbrica). 
     Malthus e Marx no perceberam que a revoluo industrial dera incio  mais profunda e transformadora evoluo material da histria. A pobreza nos bairros proletrios de Londres escondia uma revoluo em curso no interior das fbricas: o salto na produtividade. Alfred Marshall foi pioneiro ao perceber que funcionrios mais habilidosos e capazes passaram a receber salrios trs, quatro vezes maiores. Os ganhos na produtividade subiram ainda mais depois dos avanos na educao e na sade pblica. Nos ltimos 200 anos, a renda mdia da populao mundial foi multiplicada por dez, apesar de o nmero total de habitantes ter se multiplicado por seis. Hoje, mesmo os moradores de pases emergentes, como a China ou o Brasil, desfrutam de um padro de vida superior ao do europeu tpico nos tempos de Malthus e Marx.
     A f dos economistas na evoluo material da humanidade, no entanto, continua sujeita a fases de ceticismo, como se v, alis, na crise internacional atual. No sculo passado, houve trs momentos em que a confiana foi colocada contra a parede: nas guerras mundiais e na Grande Depresso dos anos 30. Alguns chegaram a crer piamente que o comunismo venceria. Keynes no foi um deles, mas passou a duvidar que o progresso material ocorresse automaticamente. Para Keynes, o governo deveria agir para combater o declnio nos momentos de baixa. Essa ideia se contrapunha ao laissez-faire mais radical, associado sobretudo  chamada Escola Austraca de Ludwig von Mises e seus seguidores, que viam as crises como a purgao dos excessos acumulados nos anos de euforia financeira. Para Joseph Schumpeter, a economia estava sujeita ao vendaval perene da destruio criativa. Friedrich Hayek, ao publicar O caminho da Servido (1944), sua condenao ao estatismo e s economias planejadas de nazistas e socialistas, ganhou popularidade entre os americanos preocupados com o avano do governo no New Deal. Para o austraco, a receita da prosperidade estava nos mercados livres e na estabilidade monetria. Keynes e Hayek mantiveram um debate, por anos, a respeito de qual seria a interveno saudvel do governo em uma sociedade livre. Nunca chegaram a um acordo, relata Nasar. Mas Keynes fazia questo de recomendar a leitura de O caminho da Servido e indicou Hayek para a British Academy, preterindo sua discpula Joan Robinson.
     Nasar encerra o livro em nota otimista, afirmando que os ganhos cumulativos de bem-estar no sero afetados significativamente por crises eventuais. A questo estar na melhor maneira de preservar o avano material humano, na disputa contnua entre os intervencionistas seguidores de Keynes e os liberais seguidores de Hayek.

O LIBERAL
Para Hayek, o fato de a Alemanha ressurgir das cinzas era ao mesmo tempo uma reafirmao de sua f no livre mercado, no livre-comrcio e na solidez monetria e a esperana de que a civilizao liberal europeia que ele amava afinal de contas no estava condenada  extino. 
Sylvia Nasar, sobre Friedrich Hayek

O INTERVENCIONISTA
Keynes demonstrou que, nas depresses, a poltica monetria no funciona. No havia nada que o banco central pudesse fazer para tornar o crdito mais barato. Se o setor privado no pudesse ou no quisesse gastar, ento caberia ao governo faz-lo. O governo tinha de se preparar para agir como gastador em ltimo recurso.
Sylvia Nasar, sobre John Maynard Keynes


5. VEJA RECOMENDA

DISCO
TEMPEST, BOB DYLAN (SONY)
Quando Bob Dylan anunciou que seu 350 disco se chamaria Tempest, muitos crticos especularam que seria o fim de sua carreira em estdio  o ttulo faria referncia  ltima pea de Shakespeare, A Tempestade. Dylan os desmentiu: disse que estava falando no da obra de Shakespeare, mas de um evento meteorolgico comum. De resto, o disco revela um artista na melhor forma criativa, longe do ponto em que seria melhor deixar o palco. A faixa-ttulo, com catorze minutos e 45 versos sem refro, toma como mote o naufrgio do Titanic, em 1912, e revisita outras obras que trataram do mesmo acidente  de uma esquecida cano country de The Carter Family ao grande sucesso cinematogrfico dirigido por James Cameron. E tudo isso sobre uma base musical inspirada nas canes folclricas da Irlanda. Outras referncias incluem o assassinato de John Lennon (em Roll on John) e os versos do poeta abolicionista John Greenleaf Whittier (Scarlet Town). A msica est sempre  altura da poesia inspirada de Bob Dylan. Tempest tem jazz (Duquesne Whistle), blues de raiz (Early Roman Kings), honky tonky (Narrow Way) e baladas sombrias (Tin Angel).

LIVROS
OS ENAMORAMENTOS, DE JAVIER MARIAS (TRADUO DE EDUARDO BRANDO; COMPANHIA DAS LETRAS 344 PGINAS; 49,50 REAIS)
Javier Marias, 60 anos,  o mais celebrado autor da literatura espanhola contempornea. Admirado por seus pares  Salman Rushdie, Orhan Pamuk e J.M. Coetzee esto entre seus fs , costuma ser lembrado como candidato srio ao Prmio Nobel. Sua obra quase sempre lana o leitor em especulaes complexas sobre a natureza da verdade e da fico. Foi assim na extensa trilogia Seu Rosto Amanh. Este novo livro , na definio do autor, uma histria simples, mas um romance no to simples. A tal histria simples  narrada em uma digressiva primeira pessoa por Maria Dolz, uma editora que vigia, a distncia, um empresrio e sua bela mulher, imaginando que os dois formam o casal perfeito. Depois que o empresrio  assassinado. Mara tem de rever suas noes ingnuas sobre o amor ideal. Em uma promoo especial da editora, Os Enamoramentos vem acompanhado de O Coronel Chabert, do francs Honor de Balzac, clssico que  uma das referncias centrais na narrativa de Maras.

HOMENS INTERESSANTES E OUTRAS HISTRIAS (TRADUO DE NO OLIVEIRA
POLICARPO POLLI; EDITORA 34; 328 PGINAS; 49 REAIS) E A FRAUDE E OUTRAS HISTRIAS (TRADUO DE DENISE SALES; EDITORA 34; 224 PGINAS; 39 REAIS), DE NIKOLAI LESKOV
O russo Nikolai Leskov (1831-1895) foi pouco traduzido no Brasil  tanto que estas duas coletneas trazem contos inditos no pas. J no era sem tempo. Autor admirado por contemporneos como Tolsti e Tchekov, Leskov foi, no entanto, uma figura politicamente isolada em uma poca de drsticas divises ideolgicas  no se alinhava nem com radicais nem com conservadores. Trabalhou como funcionrio pblico em Kiev e depois como ajudante de administrador de uma fazenda. Nessas profisses, conheceu todos os estratos da sociedade russa, dos barnabs aos camponeses que acabavam de se libertar da condio servil. Seus contos trazem uma vasta e pulsante galeria de personagens. Com eventuais elementos fantsticos. so narrativas simples mas poderosas. profundamente ligadas  cultura popular russa.

BLU-RAY
INSTINTO SELVAGEM
(BASIC INSTINCT, ESTADOS UNIDOS, 1992. UNIVERSAL)
Sim, Instinto Selvagem traz cenas de sexo bastante cruas e violentas  na relao patolgica que o policial interpretado por Michael Douglas vive com a prpria psiquiatra, h um momento que fica em um indeciso limiar entre o sexo consensual e o estupro. Mas, em retrospecto, o furor que o filme causou quando foi lanado, h vinte anos, parece hoje exagerado. Conduzido pela sensibilidade thrash do diretor holands Paul Verhoeven, este  apenas um divertido thriller, um grande policial B com um bom tempero ertico. No centro da trama, est Sharon Stone no melhor papel de sua carreira: Catherine Tramell, escritora de romances policiais com um apetite sexual onvoro e uma perigosa fixao em picadores de gelo. Ela se toma suspeita de um assassinato real que copia nos detalhes um crime descrito em um de seus livros. O detetive Nick Curran (Douglas)  o encarregado de investig-la, mas, como  obrigatrio entre um policial duro e sua femme fatale, acaba se envolvendo com a suspeita. E Instinto Selvagem, claro, ser sempre lembrado pela cena em que Sharon Stone cruza as pernas durante um interrogatrio policial.

CINEMA
MY WAY, O MITO ALM DA MSICA
(CLOCLO, FRANA, 2012. EM CARTAZ NO RIO E EM SO PAULO A PARTIR DE SEXTA-FEIRA)
Embora pouco conhecido fora da Frana, Claude Franois (1939-1978) foi um dolo da msica pop de seu pas. E  o autor de um dos maiores sucessos de Frank Sinatra, My Way (o ttulo original  Comme dHabitude). My Way o filme,  uma competente cinebiografia de Franois  e de quebra reconstitui o colorido universo musical francs nas dcadas de 60 e 70. A msica de Franois era mais calcada em verses de sucessos americanos do que em composies prprias. Gravou desde a soul music sem verniz do cantor Otis Redding at clssicos da Motown e da disco music. O ator Jrmie Renier pega seu personagem  unha, encarnando com convico todos os seus conflitos e contradies. Franois ressentia-se do fato de o pai nunca ter aceitado sua opo artstica (ele morreu antes de o filho se tornar um popstar). Foi um marido infiel e um amante destemperado, e costumava tratar msicos e amigos a sapatadas. Em uma das cenas mais curiosas do filme, o compositor de My Way fica a poucos passos de Frank Sinatra  mas no encontra coragem para se apresentar ao cantor que imortalizou sua msica.


6. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1. Cinquenta Tons de Cinza  E.L. James. INTRNSECA
2. A Dana dos Drages  George R.R. Martin. LEYA BRASIL
3. Jogos Vorazes  Suzanne Collins. ROCCO 
4. A Guerra dos Tronos  George R.R. Martin. LEYA BRASIL 
5. Herana  Christopher Paolini. ROCCO 
6. Em Chamas  Suzanne Collins. ROCCO 
7. A Escolha  Nicholas Sparks. NOVO CONCEITO
8. A Esperana  Suzanne Collins. ROCCO 
9. O Casamento  Nicholas Sparks. ARQUEIRO
10.  Manuscrito Encontrado em Accra  Paulo Coelho. SEXTANTE 

NO FICO
1. Nada a Perder  Edir Macedo. PLANETA
2. A Queda  Diogo Mainardi. RECORD 
3. Nunca Fui Santo  Marcos Reis e Mauro Beting. UNIVERSO DOS LIVROS 
4. Uma Breve Histria do Cristianismo  Geoffrey Blainey. FUNDAMENTO 
5. One Direction  Danny White. BEST SELLER 
6. Guia Politicamente Incorreto da Histria do Brasil  Leandro Narloch. LEYA BRASIL
7. Guia Politicamente Incorreto da Filosofia  Luiz Felipe Pond. LEYA BRASIL 
8. Mentes Ansiosas  Ana Beatriz Barbosa Silva. FONTANAR
9. 30 Minutos e Pronto  Jamie Oliver. GLOBO 
10. Para Sempre  Kim e Krickitt Carpenter. NOVO CONCEITO 

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1. Agapinho  gape para Crianas  Padre Marcelo Rossi. GLOBO 
2. Desperte o Milionrio que H em Voc  Carlos Wizard Martins. GENTE
3. A Menina do Vale  Bel Pesce. CASA DA PALAVRA
4. O Monge e o Executivo  James Hunter. SEXTANTE 
5. gape  Padre Marcelo Rossi. GLOBO 
6. Casamento Blindado  Renato e Cristiane Cardoso. THOMAS NELSON BRASIL 
7. Nietzsche para Estressados  Allan Percy. SEXTANTE 
8. Encantadores de Vidas  Eduardo Moreira. RECORD 
9. Problemas? Oba!  Roberto Shinyashiki. GENTE 
10. Os Segredos da Mente Milionria  T. Harv Eker. SEXTANTE


7. J.R. GUZZO  RATOS E HOMENS
     Quando o ex-presidente Lula indicou o nome do procurador Joaquim Barbosa para o Supremo Tribunal Federal, em 2003, aplaudiu a si mesmo por mais esse lance da genialidade poltica que lhe  atribuda. Tornava-se, com isso, o primeiro presidente deste pas a levar um negro  mais alta corte de Justia do Brasil  o que no  bem assim, pois antes de Barbosa o STF teve dois ministros mulatos, j esquecidos na bruma dos tempos. Mas o que vale nas coisas da poltica, em geral,  o que se diz  e o que se disse  que havia ali um plano magistral. O novo ministro, agradecido pela honra recebida, seria um belo amigo do governo nas horas difceis. Acontece que os melhores planos, muitas vezes, no acabam em bons resultados; o que decide tudo, no fim das contas, so os azares da vida. O grande problema para Lula foi que o nico negro disponvel para ocupar o cargo era Joaquim Barbosa  e ali estava, possivelmente, uma das pessoas menos indicadas para fazer o que esperavam dele.
     Para comeo de conversa, Barbosa d a impresso de detestar, positivamente, o rtulo de primeiro ministro negro do STF. No quer que pensem que est l para preencher alguma espcie de cota; a nica razo de sua presena no STF, julga o ministro, so seus mritos de jurista, adquiridos em anos de trabalho durssimo e sem a ajuda de ningum. Nunca precisou do apoio da comunidade negra, nem da secretaria da igualdade racial, ou coisa que o valha. Tambm no parece se impressionar, nem um pouco, com gente de origem humilde.  filho de um pedreiro do interior de Minas Gerais, tornou-se arrimo de famlia na adolescncia e ao contrrio de Lula, que no bate ponto desde que virou lder sindical, em 1975, Barbosa comeou a trabalhar aos 16 anos de idade e no parou at hoje.
     O ministro, alm disso,  homem de personalidade notoriamente difcil, sujeita a speras mudanas de humor e estoques perigosamente baixos de pacincia.  atormentado por uma hrnia de disco que lhe causa dores cruis e o obriga muitas vezes a ficar de p durante as sesses do STF. , em suma, o tipo de pessoa que se deve tratar com cuidado. Lula e o PT fizeram justamente o contrrio. Quando Barbosa se tornou relator no processo do mensalo, em 2006, continuaram apostando todas as fichas na histrica impunidade com que so premiados no Brasil rus poderosos e capazes de pagar advogados caros. Descobriram, agora, que o trabalho de Barbosa puxou as condenaes em massa no julgamento do mensalo  e jogou uma banana de dinamite no sistema de corrupo que h dez anos envenena a vida pblica no Brasil.
     A primeira trovoada sria veio quando o ministro aceitou a denncia da procuradoria contra os quarenta do mensalo. Na poca, o nico deles com cabea foi o ex-secretrio-geral do PT Silvio Land Rover Pereira; no contestou a acusao, foi punido com prestao de servios comunitrios e acabou resolvendo seu caso a preo de custo. Os demais, guiados pelo farol de Lula, preferiram ficar debochando. Durante o tempo todo, ele sustentou que o mensalo nunca existiu. Quando o julgamento comeou, disse que no iria acompanhar nada: Tenho mais o que fazer. Delbio Soares, operador-mor do guich de pagamento do esquema, afirmou que tudo iria acabar em piada de salo. O presidente nacional do PT, Rui Falco, garantiu que o povo estava interessado, mesmo,  na novela das 9. O que queriam com isso? Imaginavam que Joaquim Barbosa, trabalhando como um burro de carga, com a tortura da dor nos quadris e seu temperamento de porco-espinho, estava achando engraado ouvir que o seu esforo era uma palhaada intil? Lula e sua tropa tinham certeza de que o processo iria se arrastar at o Dia do Juzo Final. O ministro Barbosa, hoje, poderia dizer: No contavam com a minha astcia. No caso, sua astcia foi entender a diferena entre muito tempo e nunca. Tudo seria demorado, claro. Mas ele tinha certeza de que terminaria o seu trabalho  e que os 80% de popularidade de Lula, a, no iriam servir para nada.
     Em sua curta obra-prima Raros e Homens, um dos clssicos da literatura populista americana, John Steinbeck se inspira num antigo poema escocs para nos dizer que os mais bem cuidados planos deste mundo, sejam feitos por ratos ou por homens, so coisas frgeis; podem ser desfeitos pela roda do acaso, que  indiferente tanto aos projetos mais humildes quanto aos mais ambiciosos, e s acabam deixando mgoa e dor. Joaquim Barbosa talvez faa com que os mensaleiros se lembrem disso por muito tempo.

